Crise política e transição de governo no Brasil

A situação brasileira merece bastante reflexão e também atuação. Portanto, ZENIT entrevistou agora o dr. Ivanaldo Santos (ivanaldosantos@yahoo.com.br), filósofo, escritor e professor universitário. Acompanhe essa entrevista abaixo:

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Zenit: Qual a reflexão do filósofo diante do fato: um juiz brasileiro levantou o sigilo da gravação telefônica que trouxe à luz palavras duras contra a democracia pronunciadas pelo ex-presidente Lula. E agora o que mais se discute é a validade jurídica ou não desse levantamento de sigilo e não mais sobre o conteúdo das gravações?

Ivanaldo Santos: Inicialmente é necessário esclarecer que o Procurador Geral da República, o Dr. Rodrigo Janot, em declarações públicas, afirmou que a divulgação das conversas envolvendo o ex-presidente Lula e outras figuras importantes da república não constituiu crime. O conteúdo das gravações é algo gravíssimo. Abertamente, numa linguagem chula, parecendo liderança de facção criminosa, essas lideranças políticas apresentam um discurso preconceituoso contra pessoas das cidades do interior, mulheres, movimentos populares e grupos religiosos, especialmente contra os cristãos. Se algum crime foi praticado pelo judiciário, que seja investigado e os responsáveis condenados. No entanto, o atual governo, o ex-presidente Lula e outras lideranças políticas devem à nação, no mínimo, um pedido de desculpas e uma explicação pela forma grosseira e desprovida de ética como tratam o povo brasileiro.

Zenit: Como analisar, de um lado, o fato da população espontaneamente ir às ruas exigindo a renúncia de um governo e, por outro, o governo continuar atuando e nomeando ministros e ignorando qualquer apelo público?

Ivanaldo Santos: De um lado, o governo tenta passar a imagem de normalidade. Por isso, nomeia ministros e realiza outras atividades administrativas. Do outro lado, o governo parece viver numa espécie de “castelo encantado”, sem manter contato com a realidade. O discurso do governo, que acusa a oposição de querer dar um golpe, de chamar qualquer grupo de protestos de fascista, é um discurso ingênuo e que demonstra desconhecimento dos profundos problemas políticos, econômicos e institucionais do país. O governo não negocia e não ouve os grandes grupos de protestos, não ouve as lideranças, tanto da oposição no congresso como também nas ruas. Essa atitude está fazendo o governo, cada vez mais, se isolar e perder apoio político e da população. O governo precisa, com urgência, rever essa estratégia.

Zenit: A violência nunca é solução para os conflitos, e o desejo de paz é o que está no coração de toda sociedade. Fale-me sobre a definição de paz. Paz é ausência de guerra?

Ivanaldo Santos: De fato é necessário reiterar, com força, que nenhum ato de violência trará a paz e muito menos prosperidade política e econômica. Atualmente vemos multidões nas ruas e nas principais cidades do país pedindo mais ética na política, combate a corrupção, reforma política e a renuncia do governo. Esse movimento já supera, em número e intensidade, o Movimento das Diretas Já (1983-1984). Até agora toda essa onda de protestos tem transcorrido na paz, uma espécie de carnaval fora de época. É necessário lutar para que isso continue acontecendo, ou seja, a realização de protestos, mas dentro da ordem, da lei e da paz.

Zenit: Qual seria uma possível saída para a atual crise política e institucional vivida no Brasil?

Ivanaldo Santos: Em um gesto profético, o atual governo deveria renunciar e, ao mesmo tempo, se convocar novas eleições nacionais. Talvez esse gesto não aconteça. Em todo caso, o Brasil necessita, com urgência, de um governo de transição que possa reunificar o país e conduzi-lo a superar as diversas crises existentes. De um lado, a Igreja é convocada a ser a grande liderança que deverá orientar o processo de estabelecimento de um governo de transição e de unificação nacional. Do outro lado, não se pode perder a oportunidade que as multidões que estão nas ruas clamando por ética na política e combate a corrupção estão dando ao país. Por isso, o novo governo deverá promover um processo de maior autonomia do judiciário, da Polícia Federal e da impressa livre e investigativa. Sem contar que o novo governo precisa ter coragem para fazer as reformas urgentes que o país necessita, como, por exemplo, a reforma tributária, a reforma política e a desburocratização do Estado.

Disponivel em: https://pt.zenit.org/articles/crise-politica-e-transicao-de-governo-no-brasil/

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