O anticomunismo de Fernando Pessoa

Vejamos um texto e dois poemas de Fernando Pessoa sobre o comunismo.

Primeiro Texto[1]:

“Catolicismo e Comunismo

Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.
O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.”

Fernando Pessoa, in ‘Ideias Filosóficas’

Primeiro Poema[2]:

Alberto Caeiro 

XXXII – Ontem à Tarde  

     Ontem à tarde um homem das cidades 
     Falava à porta da estalagem.
     Falava comigo também.
     Falava da justiça e da luta para haver justiça
     E dos operários que sofrem,
     E do trabalho constante, e dos que têm fome,
     E dos ricos, que só têm costas para isso.     E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
     E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
     O ódio que ele sentia, e a compaixão
     Que ele dizia que sentia.

     (Mas eu mal o estava ouvindo.
     Que me importam a mim os homens
     E o que sofrem ou supõem que sofrem?  
     Sejam como eu — não sofrerão.
     Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, 
     Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
     A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.  
     Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

     Eu no que estava pensando
     Quando o amigo de gente falava
     (E isso me comoveu até às lágrimas),
     Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos 
     A esse entardecer
     Não parecia os sinos duma capela pequenina
     A que fossem à missa as flores e os regatos
     E as almas simples como a minha.

     (Louvado seja Deus que não sou bom, 
     E tenho o egoísmo natural das flores 
     E dos rios que seguem o seu caminho 
     Preocupados sem o saber
     Só com florir e ir correndo.
     É essa a única missão no Mundo, 
     Essa — existir claramente,
     E saber faze-lo sem pensar nisso.

     E o homem calara-se, olhando o poente.
     Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

 

Segundo Poema[3]:

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).

Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?

 
Conclusão:

 

As conclusões são suas.

 

 

[1] http://www.citador.pt/textos/catolicismo-e-comunismo-fernando-pessoa

[2] http://www.jornaldepoesia.jor.br/fp237.html

[3] http://multipessoa.net/labirinto/alberto-caeiro/22

 

Rafael é autodidata. Não gosta de normas da ABNT. Não reconhece, nem valida o MEC. Não quer saber da nova ortografia.

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